Cuidar é não se acomodar - Jean Oury e o antimanicomial
- contatocasadotodos
- 28 de jul
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Atualizado: 16h

Existe uma pergunta que Jean Oury fazia, segundo dizem, quase diariamente aos que trabalhavam com ele na Clínica de La Borde: Qu’est-ce qu’on fout là? O que diabos estamos fazendo aqui?
É uma pergunta desconcertante. Não porque seja difícil de responder, mas porque insiste em ser feita. Porque uma resposta dada ontem não serve amanhã. Porque o cuidado, se quiser ser cuidado de verdade, não pode se acomodar em protocolos, hierarquias ou rotinas engessadas. O cuidado precisa de desejo; conclama um “querer mais” constante.
Nascido em 1924 e morto em 2014, o psiquiatra e psicanalista francês Jean Oury viveu as maiores transformações da psiquiatria no século XX e se consagrou como um dos mais importantes psicanalistas de sua geração.
Oury acompanhou a consolidação dos hospitais psiquiátricos como espaços de tratamento e depósito de “desajustados”. Instituições que, embora tenham surgido com intenções de cuidado à saúde no século XIX, já haviam, em 1930, se calcificado como espaços de exclusão social e confinamento de uma parcela da sociedade ocasionalmente considerada indesejada: loucos, doentes incuráveis, adictos…
Jean também acompanhou o surgimento dos medicamentos psiquiátricos que, a partir dos anos 1950, possibilitaram uma mudança social importante. Por meio do lítio e da clorpromazina, parte do sofrimento psíquico pôde ser amenizada. Entretanto, não demorou para que a medicação passasse a ser utilizada como uma “camisa de força química”, não apenas reduzindo o sofrimento, mas também hipersedando as pessoas e funcionando como mais um modo de controle de corpos dóceis.
Nesse período, seu contemporâneo Michel Foucault estava estudando e publicando uma série de obras sobre a história da loucura e os movimentos de exclusão e controle dos corpos. O autor aponta como o ato de separar e segregar aqueles que não coincidem com o grupo é um processo histórico que teve nos manicômios uma via de controle geográfico, mas encontrou nos medicamentos psiquiátricos um modo ainda mais perverso de apaziguar as pessoas de dentro para fora.
Por volta dos anos 1950 surge o movimento antimanicomial, liderado por nomes importantes da época, como os psiquiatras Frantz Fanon e Franco Basaglia. O movimento buscava uma reorganização das instituições de saúde mental e a adoção de um novo modo de tratar as pessoas, focado no convívio em vez da exclusão.
Sustentado por esse movimento ético e político, e também ajudando a sustentá-lo, Jean Oury funda a clínica La Borde, em um castelo às margens do Loire: uma clínica sem terapeutas ocupacionais, sem hipermedicalização e sem contenções. Na contramão da lógica de conter corpos e ocupar o tempo por meio de uma pretensa funcionalidade imposta às pessoas encarceradas.
Em sua obra O Coletivo, Jean Oury apresenta o modelo de organização e tratamento de La Borde. O termo “coletivo”, para Oury, ganha estatuto de conceito. Passa a ser um operador lógico, uma função, algo maior que a simples união das partes e que, de certo modo, as regula. O coletivo funciona como um operador que, a partir do encontro das diferenças, busca sustentar a singularidade radical de cada um, e não uma normalopatia ou uma homogeneização.
Para o paciente psicótico, isso tem um efeito clínico preciso. Se o esquizofrênico é um sujeito que, nas palavras do próprio Oury, descarrilhou do simbólico, a tarefa não é recolocá-lo nos trilhos. É produzir algo que permita que haja, novamente, sujeito.
Isso tem implicações profundas para pensar qualquer instituição de cuidado — e não apenas as psiquiátricas. Oury via com desconfiança o que chamava de patoplastia: o fenômeno pelo qual a instituição adoece quem deveria tratar. Regras de segurança que criam prisões. Rotinas que cronificam. Profissionais que, ao perderem o desejo de estar onde estão, tornam-se peças de uma máquina que produz mais sofrimento do que alivia. A cronificação dos pacientes, dizia ele, é diretamente proporcional à cronificação da instituição e daqueles que nela trabalham.
La Borde apostava na desierarquização das equipes. Cozinheiros, jardineiros e enfermeiros ocupavam o mesmo plano, do ponto de vista clínico. A transferência não respeita status nem folha de pagamento. Um paciente poderia transferir mais para o jardineiro do que para o psicanalista, e isso não era um problema. Para tanto, todos na instituição se reuniam em pé de igualdade para discutir o caso de cada paciente.
Oury dedicou-se à psicoterapia institucional, assumindo que as instituições também adoecem e, portanto, podem ser tratadas. Valendo-se dos escritos de Sigmund Freud e Karl Marx, postulou que tratar sem uma crítica da sociedade e de suas estruturas de exclusão seria reduzir o sofrimento a uma questão meramente técnica. Da mesma forma, tratar sem questionar o poder social exercido nos dispositivos de cuidado seria negar a dimensão política presente em cada adoecimento e em cada tratamento.
A organização de La Borde dialoga profundamente com os valores e princípios éticos do Instituto Casa do Todos. A possibilidade de tratar a todos sem o intuito de homogeneizar, sem a expectativa de construir uma “normalopatia”, mas sustentando o radical singular. Ao mesmo tempo, ao olhar para La Borde, identificamos mecanismos de funcionamento semelhantes aos do Instituto, que buscam diminuir as chances de cronificação, de perda de inovação nos casos e de uma conformidade que já não deseja nada além.
A pergunta de Oury continua viva: o que diabos estamos fazendo aqui?
Não como angústia existencial, mas como ética. Como desejo que se renova. Como condição mínima para que qualquer instituição de cuidado mereça esse nome: sustentar o desejo e o movimento singular de cada sujeito.




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