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Culinária Terapêutica: Como a Cozinha Pode Transformar o Cuidado em Saúde Mental




A utilização da culinária como ferramenta terapêutica — ou mesmo como uma possibilidade complementar ao processo psicoterapêutico — talvez mereça receber maior atenção. Seus efeitos podem ser observados tanto pelo corpo terapêutico quanto pelos familiares e, muitas vezes, aparecem em aspectos sutis do cotidiano: maior autonomia, melhora na relação com o outro, ampliação do repertório sensorial, desenvolvimento motor, maior tolerância à frustração e, sobretudo, uma possibilidade de circulação mais viva pelo mundo.

 


No Instituto Casa do Todos, a culinária ocupa um lugar privilegiado. Como o Instituto possui a organização espacial de uma casa, muitas das atividades acabam acontecendo na cozinha — espaço que, historicamente, sempre foi um ponto de encontro entre sujeitos. Se retornarmos aos primórdios da humanidade, encontraremos justamente ao redor do fogo alguns dos primeiros espaços de convivência, troca e construção coletiva. A fogueira não servia apenas para aquecer ou cozinhar alimentos; ela também reunia pessoas, produzia narrativas, criava vínculos e inaugurava formas de sociabilidade.

 


Nesse sentido, recorremos a autores importantes que pensaram o impacto simbólico e social do fogo e da culinária. Sigmund Freud escreve sobre a descoberta e o domínio do fogo como um marco fundamental da civilização, pois permitiu ao homem deixar de estar completamente à mercê da natureza para começar, ainda que minimamente, a transformá-la. Posteriormente, Yuval Noah Harari também aponta o domínio do fogo e o preparo dos alimentos como elementos fundamentais do desenvolvimento humano e social. Esses são apenas dois exemplos entre muitos pensadores que olharam para a cozinha como um espaço possível de encontro entre sujeitos.

 


No Instituto, a cozinha é utilizada diariamente em atividades conduzidas por diferentes terapeutas e frequentadas por sujeitos com distintas necessidades físicas, psíquicas e sociais. Pessoas com síndrome de Down, autismo, esquizofrenia, depressão, transtorno bipolar, paralisia cerebral… Além do encontro de crianças, adultos e idosos em um mesmo espaço, podendo estar reunidos na construção de um almoço, de um lanche ou de um prato que posteriormente será compartilhado entre todos.

 


Talvez um dos aspectos mais importantes desse processo seja justamente a convivência entre diferenças tão radicais. Não se trata apenas de cozinhar juntos, mas de sustentar um espaço coletivo onde cada sujeito possa participar a partir de suas possibilidades. O encontro não se esgota em si mesmo: ele coloca todos em movimento diante de um objetivo comum.

 


Muitas vezes, na área da saúde, os sujeitos são separados a partir de seus diagnósticos, partindo-se da hipótese de que reunir pessoas semelhantes facilitaria o trabalho. Evidentemente, esses espaços possuem sua importância e podem favorecer identificação e desenvolvimento conjunto. Entretanto, inspirados por autores como Michel Foucault e Jean Oury, pensamos o cuidado também como um espaço de encontro entre diferenças, indo na linha oposta da separação e segregação.

 


Isso significa considerar a singularidade radical de cada sujeito sem transformá-lo apenas em seu diagnóstico. Significa construir atividades capazes de acolher pessoas muito distintas entre si, levando em consideração suas necessidades físicas, motoras, cognitivas e emocionais, mas sem retirar delas a possibilidade do convívio coletivo, mas justamente incentivando essa troca.

 


Quando um grupo decide preparar um almoço, torna-se necessário estabelecer um acordo mínimo entre diferentes desejos. O que será feito? Quem gostaria de cozinhar? O que cada um consegue ou deseja comer? Quem irá participar da compra dos ingredientes? Antes mesmo do alimento existir, já encontramos ali um importante trabalho sobre escuta, negociação, frustração e convivência.

 


Além do desenvolvimento das habilidades sociais, a culinária também amplia o contato com estímulos visuais, táteis, olfativos e gustativos. Pensemos, por exemplo, na introdução de novos alimentos, sabores e texturas para sujeitos que apresentam rigidez alimentar ou resistência ao novo. Muitas vezes, o ambiente coletivo possibilita uma abertura que dificilmente ocorreria de forma isolada. O sujeito vê o outro experimentar, sente curiosidade, aproxima-se aos poucos, tolera o cheiro, toca a textura, aceita observar e as vezes provar.

 


Esse aspecto da abertura ao novo é fundamental em qualquer processo de cuidado em saúde mental. Quanto mais rígido é o fechamento de um sujeito para o mundo, maior tende a ser seu sofrimento. Em quadros como o autismo, por exemplo, a construção de espaços seguros para experimentar novas sensações, ritmos e experiências torna-se imprescindível — e a cozinha oferece exatamente essa possibilidade: um encontro gradual e concreto com o desconhecido.

 

No Instituto Casa do Todos, os projetos culinários frequentemente incluem uma ida ao mercado. Nesse momento, produz-se coletivamente uma lista de compras, organiza-se o deslocamento de sujeitos com necessidades muito diferentes e estabelece-se um contato direto com o espaço social. É preciso circular, pedir informações, lidar com dinheiro, compreender valores, esperar, escolher, negociar.

 

Percebemos então que algo aparentemente simples, como preparar um almoço, convoca uma enorme quantidade de processos subjetivos, motores, emocionais e relacionais.

 

Já durante o preparo do alimento, surgem outros aspectos igualmente importantes: separar ingredientes e utensílios, lavar e descascar cortar legumes, esperar o tempo do cozimento, organizar etapas, dividir tarefas. A culinária convoca o sujeito a uma presença muito concreta no aqui e agora.

 

Diferentes habilidades podem ser desenvolvidas nesse processo — coordenação motora fina, atenção, percepção sensorial, tolerância à espera, organização espacial —, mas talvez o mais importante seja a possibilidade de o sujeito construir uma relação mais viva com o próprio corpo e com o tempo das coisas.

 

Isso aparece de maneira especialmente importante em casos de psicose, esquizofrenia, autismo ou síndrome de Down. Ao cozinhar, o sujeito precisa sustentar pequenas operações do cotidiano que muitas vezes parecem banais para a maioria das pessoas: controlar os membros superiores, esperar a água ferver, perceber o ponto de cozimento, compreender que certas etapas não podem ser aceleradas.

 

E justamente por parecerem banais, esses processos costumam passar despercebidos. Entretanto, são eles que organizam grande parte da vida cotidiana. Desenvolvê-los significa ampliar autonomia, segurança e possibilidade de circulação pelo mundo.

 

Donald Winnicott escreve sobre o pensamento mágico presente na infância — a fantasia de que apenas desejar algo poderia transformá-lo em realidade — e sobre o amadurecimento necessário para compreender que o mundo exige ações, tempo e processos. Evidentemente, todos nós, em diferentes momentos, somos atravessados por fantasias semelhantes. Contudo, em alguns quadros psicóticos, essa relação com o tempo, com o processo e com a causalidade pode encontrar-se profundamente comprometida.

 

A culinária trabalha justamente nessa direção. Não é possível apressar tudo. É preciso esperar, construir etapas, suportar o intervalo entre desejo e realização. Existe algo de profundamente terapêutico nessa experiência, ainda mais quando vivida em conjunto.


Outro aspecto importante da culinária é a responsabilidade coletiva posterior ao preparo do alimento. Cozinhar também implica limpar, secar, guardar utensílios, organizar o espaço utilizado e responsabilizar-se pelo ambiente compartilhado.

 

Nem sempre queremos limpar aquilo que usamos. Nem sempre queremos lidar com os restos, com a bagunça ou com aquilo que sobra. Contudo, existe algo de muito importante em sustentar coletivamente também essas partes menos agradáveis do processo, levar em consideração o que disse a Ana Suy, que somos resultado daquilo que fazemos com nossos restos.

 

Se o grupo pôde escolher junto, cozinhar junto e comer junto, também é importante que possa cuidar junto do espaço que utilizou. Há aqui um trabalho importante sobre responsabilidade, convivência e reconhecimento do outro.


Durante todo esse percurso, o coletivo só se torna verdadeiramente inclusivo quando consegue levar em consideração as diferenças concretas de cada sujeito. Isso implica adaptar cadeiras, utensílios, facas, descascadores, tempos e modos de participação. Implica também suportar que certas tarefas não serão realizadas de maneira idealizada.


Talvez uma batata seja descascada apenas pela metade. Talvez parte do alimento seja desperdiçada. Talvez uma salada ainda carregue um pouco de terra. Contudo, existe algo extremamente valioso no fato de aquele sujeito, dentro de suas possibilidades, ter conseguido participar, insistir, experimentar e encontrar certa satisfação naquilo que produziu.

 

A lógica do cuidado não pode estar sustentada apenas na perfeição do resultado, mas na possibilidade de participação, construção e pertencimento.

 

Existem ainda muitos outros aspectos a serem explorados dentro do trabalho culinário. O objetivo deste texto foi, de maneira introdutória, lançar alguma luz sobre o espaço da cozinha que, dentro do Instituto Casa do Todos, comporta tantos encontros, desafios e avanços cotidianos. 


Ficou curioso? Tem dúvidas ou histórias para compartilhar? Conta pra gente nos comentários. E caso conheça alguém que possa se beneficiar do nosso trabalho, estamos sempre à disposição.

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