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Convivência, expressão e cuidado: o que Nise da Silveira ainda tem a nos ensinar




Existem trajetórias na história da medicina que não podem ser resumidas a datas e diplomas. A de Nise da Silveira é uma delas. Nascida em Maceió, Alagoas, em 15 de fevereiro de 1905, ela dedicou a maior parte de sua vida profissional a uma pergunta que, décadas depois, ainda orienta o trabalho de instituições como o Instituto Casa do Todos: o que acontece quando, em vez de conter o sofrimento psíquico, decidimos escutá lo?

Este texto não pretende apenas narrar a biografia de Nise da Silveira. Pretende, sobretudo, organizar seu legado em torno de alguns eixos temáticos que continuam extremamente atuais: a convivência como forma de tratamento, a expressão artística como manifestação do inconsciente, a ruptura com a violência institucional e a construção de um modelo de cuidado centrado no reconhecimento do outro como sujeito.


Quem foi Nise da Silveira

Filha de um professor de matemática e jornalista e de uma pianista, Nise cresceu em um ambiente que combinava rigor e sensibilidade artística. Estudou em um colégio de freiras em Maceió e, aos dezesseis anos, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, tornando se a única mulher em uma turma de 157 alunos. Formou se em 1926, apresentando uma tese sobre a criminalidade da mulher, tema que já revelava sua atenção para questões de marginalização social.

Em 1927, mudou se para o Rio de Janeiro, onde passaria a atuar como psiquiatra e testemunharia, de perto, as práticas violentas que dominavam a psiquiatria de sua época: o eletrochoque, a insulinoterapia, a lobotomia e o confinamento prolongado em manicômios. Entre 1936 e 1944, foi presa e afastada do serviço público por razões políticas, acusada de vínculos com o movimento comunista. Anistiada, retomou o trabalho com uma determinação renovada, fundando, em 1946, a Seção de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro.

A partir desse momento, sua trajetória se confunde com a própria história da transformação da psiquiatria no Brasil. Foi ela quem criou, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente, e, em 1956, a Casa das Palmeiras, a primeira clínica ambulatorial psiquiátrica do país. Foi ela quem, a partir de 1954, trocou cartas com Carl Gustav Jung, encontrando o em pessoa em 1957, em Zurique, durante a exposição "Esquizofrenia em Imagens". Faleceu no Rio de Janeiro em 30 de outubro de 1999, aos 94 anos, deixando um acervo de mais de 300 mil obras e um conjunto de princípios que seguem orientando profissionais de saúde mental, arteterapeutas e instituições no Brasil e no exterior.


Primeiro eixo: a convivência como tratamento

Se há um conceito capaz de sintetizar toda a obra de Nise da Silveira, esse conceito é convivência. Antes de qualquer teoria, antes de qualquer técnica, Nise partia de uma constatação simples: ninguém se recupera na solidão de uma cela. O isolamento, prática comum nos manicômios de sua época, não era, para ela, um instrumento terapêutico, mas uma forma de violência institucional disfarçada de tratamento.

Ao fundar a Seção de Terapêutica Ocupacional, em 1946, Nise propôs exatamente o oposto do confinamento: espaços abertos, tempo compartilhado, presença constante de outras pessoas, materiais disponíveis para uso livre. A convivência, nesse contexto, não era um complemento agradável ao tratamento médico, ela era o próprio tratamento.

Essa convicção se aprofundou ainda mais a partir de 1955, quando Nise passou a introduzir cães e gatos no ambiente terapêutico, tratando os como verdadeiros co terapeutas. A observação era precisa: pacientes que mal se comunicavam verbalmente estabeleciam, com esses animais, vínculos afetivos genuínos, sem exigência de desempenho e sem julgamento. Essa relação ajudava a reduzir a ansiedade e a diminuir a frequência das crises. Décadas mais tarde, Nise sistematizaria essas observações em seu livro "Gatos: a emoção de lidar", publicado em 1998.

Em 1956, essa lógica de convivência ganhou uma nova dimensão institucional com a criação da Casa das Palmeiras, primeira clínica ambulatorial psiquiátrica do Brasil. O espaço foi pensado para pacientes que já haviam recebido alta hospitalar, mas que ainda precisavam de acompanhamento para reconstruir vínculos sociais e retomar sua vida em comunidade. Nise entendia, com décadas de antecedência em relação às políticas públicas de saúde mental que viriam depois, que a alta hospitalar não representa, por si só, o fim do sofrimento psíquico, e que o processo de reintegração exige tempo, espaço e, sobretudo, convivência contínua.

Esse princípio permanece absolutamente central no trabalho de instituições contemporâneas dedicadas à saúde mental, entre elas o Instituto Casa do Todos. Reconhecer que o encontro com o outro, seja outro paciente, outro profissional, ou mesmo um animal, é parte constitutiva da cura, e não um mero acessório, é uma das heranças mais duradouras deixadas por Nise da Silveira.



Segundo eixo: a expressão como manifestação do inconsciente

O segundo grande eixo do legado de Nise da Silveira diz respeito à sua compreensão da arte não como entretenimento ou distração, mas como linguagem legítima do inconsciente. Ao colocar tinta, pincéis, papel e argila nas mãos de pacientes considerados irrecuperáveis pela psiquiatria tradicional, Nise não estava simplesmente ocupando o tempo ocioso dessas pessoas. Estava criando condições para que algo, até então silenciado, encontrasse forma de se expressar.

Essa prática revelou, ao longo dos anos, talentos artísticos extraordinários entre pacientes internados havia décadas, muitos em condições de isolamento profundo. Carlos Pertuis guardava seus desenhos em uma caixa de sapatos debaixo da cama antes de ser descoberto por Nise. Adelina Gomes, que já confeccionava bonecas, passou a criar esculturas e pinturas nas quais a figura feminina se fundia com flores e gatos. Emygdio de Barros, internado havia 22 anos, cuja única atividade conhecida era girar sobre si mesmo, revelou, através da pintura, um universo simbólico de extraordinária riqueza. Fernando Diniz produziu, ao longo de décadas, milhares de pinturas, tornando se um dos artistas mais estudados do acervo. Raphael Domingues, Isaac Liberato, Lúcio Noeman e Octávio Inácio completam a lista dos principais nomes revelados por esse processo.

Nise analisava sistematicamente essas produções, buscando compreender, através de símbolos, cores e formas recorrentes, o estado psíquico de cada paciente ao longo do tempo, e traçando paralelos entre a evolução da obra e os momentos de crise ou de melhora. Esse trabalho de observação rigorosa deu origem, em 1952, ao Museu de Imagens do Inconsciente, hoje o maior acervo do mundo dedicado à produção artística de pessoas em sofrimento psíquico, reunindo mais de 300 mil obras, e mais tarde ao livro "Imagens do Inconsciente", publicado em 1981.

Para Nise, cada traço produzido por seus pacientes era uma tentativa do inconsciente de encontrar caminho, mesmo quando as palavras faltavam. Essa compreensão antecipou, em muitos aspectos, práticas que hoje reconhecemos como arteterapia, e permanece como um dos fundamentos mais importantes para qualquer instituição que trabalhe com arte e saúde mental, entre elas o Instituto Casa do Todos, para quem cada obra produzida em seus ateliês carrega, ainda hoje, esse mesmo princípio: expressar é uma forma de existir.



Terceiro eixo: a ruptura com a violência institucional

Não é possível compreender a importância de Nise da Silveira sem situar sua obra em contraste direto com o que ela recusou. A psiquiatria de meados do século XX, no Brasil e em boa parte do mundo, tratava o sofrimento psíquico grave com métodos hoje reconhecidos como extremamente agressivos: eletrochoque, insulinoterapia, lobotomia e longos períodos de confinamento em condições precárias.

Nise discordou frontalmente desses métodos desde o início de sua atuação como psiquiatra, e essa discordância lhe custou, em certa medida, seu próprio isolamento profissional. Colegas de trabalho, resistentes à proposta de tratamento humanizado, chegaram a isolá la dentro da própria instituição em que atuava, deixando sob sua responsabilidade o então abandonado Setor de Terapia Ocupacional. Foi justamente esse espaço, relegado por seus pares, que Nise transformou no centro de sua revolução silenciosa.

Sua trajetória de resistência não se limitou ao campo médico. Filiada à União Feminina Brasileira, entidade com vínculos ao movimento comunista, Nise foi presa em 1936, durante a ditadura de Getúlio Vargas, e ficou afastada do serviço público por oito anos, até 1944. Esse episódio revela um traço fundamental de sua personalidade: a mesma disposição para questionar estruturas de poder que a levou à prisão seria, posteriormente, o combustível de sua ruptura com a psiquiatria tradicional. Décadas mais tarde, em 1993, essa história de resistência seria reconhecida através da Medalha Chico Mendes, concedida pelo grupo Tortura Nunca Mais.

Essa disposição para romper com práticas estabelecidas, ainda que isso implicasse enfrentamento e isolamento profissional, é talvez um dos aspectos mais inspiradores de sua trajetória. Nise não esperou autorização institucional para transformar o tratamento psiquiátrico. Ela construiu, com os recursos que tinha disponíveis, um espaço alternativo dentro da própria instituição que a hostilizava, e deixou que os resultados falassem por si.


Quarto eixo: o diálogo com Jung e o reconhecimento internacional

A relevância do trabalho de Nise da Silveira para a área da saúde mental ganhou dimensão internacional a partir de sua aproximação com o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica. É importante destacar que essa aproximação não nasceu de uma adesão teórica prévia. Nise chegou às imagens do inconsciente por caminho próprio, através da observação clínica cotidiana ao longo de quase uma década de trabalho com seus pacientes.

A partir de 1954, Nise iniciou uma correspondência com Jung, na qual apresentava as imagens produzidas pelos pacientes do Engenho de Dentro e propunha uma reflexão conjunta sobre seu significado simbólico. O encontro pessoal entre os dois ocorreu em 1957, durante o II Congresso Internacional de Psiquiatria, realizado em Zurique. Na ocasião, Jung inaugurou a exposição "Esquizofrenia em Imagens", dedicada inteiramente ao trabalho desenvolvido por Nise no Brasil, gerando reconhecimento imediato para a pesquisa brasileira em âmbito internacional.

Esse episódio consolidou Nise da Silveira como uma das principais responsáveis pela introdução da psicologia junguiana no Brasil. Mas reduzir sua importância apenas a essa ligação seria simplificar demais um legado muito mais amplo. O verdadeiro valor de seu trabalho está na forma como ela integrou a psicologia analítica a uma prática clínica genuinamente brasileira, construída a partir da convivência cotidiana com pacientes historicamente marginalizados, e não como aplicação de uma teoria importada.

O reconhecimento a essa trajetória se expandiu ao longo das décadas seguintes: em 1987, Nise recebeu a Ordem do Rio Branco, no grau de Oficial, pelo Ministério das Relações Exteriores; em 1992, o título de Personalidade do Ano, concedido pela Associação Brasileira de Críticos de Arte; e em 1993, a Ordem Nacional do Mérito Educativo, pelo Ministério da Educação e do Desporto. Seu trabalho inspirou ainda a criação de museus e centros terapêuticos semelhantes em diversos estados brasileiros e no exterior, entre eles o Museu Bispo do Rosário, no Rio de Janeiro, o Centro de Estudos Nise da Silveira, em Juiz de Fora, e o Espaço Nise da Silveira, em Recife.



Quinto eixo: liberdade criativa como método

Um aspecto muitas vezes negligenciado na história de Nise da Silveira é a forma como ela concebia a relação entre profissional e paciente dentro do próprio processo criativo. Ao convidar o jovem Almir Mavignier, então estudante de música, para conduzir oficinas dentro da Seção de Terapêutica Ocupacional, Nise não lhe entregou um manual de procedimentos. Entregou lhe confiança. Perguntado sobre como deveria agir diante dos pacientes, Mavignier recebeu de Nise uma resposta que resume grande parte de seu método: que fizesse o que sentisse necessário.

Essa recusa em engessar o processo criativo com protocolos rígidos revela um princípio fundamental: para que a expressão artística cumpra sua função de manifestação do inconsciente, ela precisa de espaço de liberdade real, não apenas de supervisão técnica. Mavignier, que inicialmente se chocara com as condições precárias do hospital psiquiátrico e chegara a cogitar nunca mais retornar, encontrou na convivência direta com os pacientes a razão para permanecer, e viria a se tornar uma figura relevante nas artes visuais brasileiras, com sua trajetória profundamente marcada por essa experiência inicial ao lado de Nise.

Esse mesmo espírito de liberdade orientada, e não de controle, é um dos princípios metodológicos que instituições contemporâneas de arte e saúde mental buscam preservar, ao equilibrar acolhimento, escuta e abertura criativa dentro de seus próprios espaços de convivência.




Sexto eixo: registro, memória e transmissão


Nise da Silveira compreendia que sua prática clínica precisava também de registro sistemático, não apenas para fins terapêuticos imediatos, mas para a construção de conhecimento transmissível a outras gerações. Em 1981, publicou "Imagens do Inconsciente", livro no qual analisa, com profundidade, as trajetórias artísticas de pacientes como Fernando Diniz, Adelina Gomes e Carlos Pertuis, traçando paralelos entre a evolução de suas obras e os movimentos de crise e melhora em suas vidas.

Essa dimensão de registro e transmissão se estendeu também ao campo audiovisual, com a trilogia "Imagens do Inconsciente", dirigida por Leon Hirszman entre 1983 e 1986, e, décadas mais tarde, ao cinema de ficção, com "Nise: o Coração da Loucura", protagonizado por Glória Pires. A amizade de Nise com o poeta Ferreira Gullar rendeu ainda a biografia "Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde", na qual ela declara, em uma de suas falas mais citadas, ter aprendido a buscar beleza nas coisas aparentemente feias, síntese precisa de sua visão de mundo.

Essa preocupação em documentar e transmitir sua prática, e não apenas executá la silenciosamente, é o que permite que, mais de sete décadas depois, seu método continue sendo estudado, ensinado e reproduzido, com as devidas adaptações, em contextos completamente distintos daquele em que nasceu.



Sétimo eixo: ressonâncias com outros movimentos de reforma psiquiátrica

O trabalho de Nise da Silveira antecipou, em várias décadas, discussões que se tornariam políticas públicas consolidadas apenas com o movimento de Reforma Psiquiátrica brasileira, cujo marco legal mais conhecido é a lei federal sancionada em 2001. Conceitos como desinstitucionalização, atenção psicossocial em regime aberto e valorização da autonomia da pessoa em sofrimento psíquico, hoje formalizados em serviços como os Centros de Atenção Psicossocial, já estavam presentes, em essência, na prática que Nise construiu tanto na Seção de Terapêutica Ocupacional quanto na Casa das Palmeiras.

Essa trajetória aproxima, ainda que sem colaboração direta, a obra de Nise da Silveira de movimentos internacionais de crítica à psiquiatria manicomial, como o liderado pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia, cujas reformas resultariam, décadas depois, no fechamento progressivo dos manicômios na Itália. Nise e Basaglia, em contextos geográficos e políticos distintos, chegaram a diagnósticos semelhantes sobre os limites e as violências da instituição psiquiátrica tradicional, e apostaram, cada um a seu modo, na dimensão relacional e social do cuidado como caminho de transformação.



Oitavo eixo: um acervo em constante diálogo com o presente

Desde sua criação, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente já realizou mais de duzentas exposições, no Brasil e no exterior, incluindo mostras itinerantes de grande público, como "Nise da Silveira: a revolução do afeto", já em sua sétima edição, que passou por espaços como o Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, e o Sesc de Sorocaba. Esse movimento contínuo de circulação demonstra que o interesse pela obra de Nise da Silveira está longe de se restringir a um campo puramente historiográfico. Trata se de um patrimônio cultural vivo, que segue dialogando com novas gerações de artistas, pesquisadores, profissionais de saúde e educadores.

Manter esse acervo em circulação, permitindo que novas pessoas entrem em contato com as obras produzidas por Fernando Diniz, Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emygdio de Barros e tantos outros, é também uma forma de honrar o princípio que orientou toda a trajetória de Nise: o de que a expressão de quem foi historicamente silenciado merece, sempre, encontrar espaço para ser vista e ouvida.



Nono eixo: o legado que atravessa gerações

Passadas mais de sete décadas desde a fundação da Seção de Terapêutica Ocupacional, o legado de Nise da Silveira segue absolutamente vivo, tanto em pesquisas acadêmicas quanto em produções culturais que ajudaram a difundir sua história para públicos muito além do universo especializado da psiquiatria. A trilogia "Imagens do Inconsciente", dirigida pelo cineasta Leon Hirszman entre 1983 e 1986, narra, através da própria linguagem pictórica dos pacientes, o universo interior de Fernando Diniz, Adelina Gomes e Carlos Pertuis. O documentário "Olhar de Nise", produzido a partir de sua última entrevista, concedida dois anos antes de seu falecimento, reúne depoimentos de colaboradores, intelectuais e ex pacientes que conviveram com ela. O longa metragem "Nise: o Coração da Loucura", estrelado por Glória Pires, levou sua trajetória a um público ainda mais amplo, consolidando a de vez como uma das figuras mais importantes da história da saúde mental no Brasil.

Mas talvez o legado mais significativo de Nise da Silveira não esteja nos registros audiovisuais ou nas condecorações recebidas ao longo de sua vida. Esteja, sobretudo, em um conjunto de princípios que permanecem inteiramente atuais para qualquer instituição comprometida com a saúde mental: a convicção de que a convivência é parte constitutiva do tratamento, de que a expressão artística constitui via legítima de manifestação do inconsciente, e de que cuidar, antes de qualquer técnica, é reconhecer o outro como sujeito de uma história, não como um diagnóstico a ser gerenciado.



Décimo eixo: transformação construída no cotidiano

É importante reforçar que a revolução promovida por Nise da Silveira não nasceu de um plano institucional grandioso, nem de recursos abundantes disponibilizados desde o início. Nasceu do trabalho cotidiano dentro de um setor que seus próprios colegas de profissão haviam relegado ao abandono. Foi na repetição diária de gestos aparentemente simples, oferecer papel, oferecer tinta, sentar ao lado de um paciente e esperar, sem pressa, que algo se manifestasse, que Nise construiu, de forma gradual e persistente, uma das transformações mais profundas da história da psiquiatria brasileira.

Essa dimensão de sua trajetória carrega um ensinamento valioso para instituições que atuam hoje com populações em situação de vulnerabilidade: transformações duradouras nem sempre dependem de grandes estruturas ou investimentos vultosos. Frequentemente, dependem da disposição de sustentar presença e escuta ao longo do tempo, confiando que esses gestos, repetidos com constância, produzem efeitos que nenhuma intervenção isolada seria capaz de gerar.



Décimo primeiro eixo: formar profissionais pela convivência, não apenas pela teoria

O método de Nise da Silveira também deixou marcas duradouras na forma como se concebe a formação de profissionais na interseção entre arte e saúde mental. Ao confiar responsabilidades reais a colaboradores jovens, como fez com Almir Mavignier, então estudante de música sem formação prévia em terapia ocupacional, Nise demonstrou que a experiência direta de convivência com pacientes é insubstituível na formação de qualquer profissional dessa área, independentemente de seu histórico acadêmico.

Esse princípio permanece relevante para programas de formação em instituições contemporâneas de arte e saúde mental: a convicção de que nenhuma capacitação exclusivamente teórica substitui a experiência viva do encontro, da escuta paciente e da convivência sustentada ao longo do tempo com pessoas em sofrimento psíquico.



O que isso significa para o Instituto Casa do Todos

É exatamente nesse ponto que a obra de Nise da Silveira se conecta diretamente à missão do Instituto Casa do Todos. Trabalhar com arte e saúde mental para populações em situação de vulnerabilidade em São Paulo significa, antes de tudo, dar continuidade a um caminho aberto há mais de sete décadas: o de acreditar que a convivência cura, que a expressão liberta, e que cada pessoa carrega em si uma capacidade de comunicação que merece espaço para se manifestar.

Cada oficina de arte, cada momento de convivência oferecido pelo Instituto, carrega, ainda que de forma indireta, a herança deixada por Nise da Silveira no Engenho de Dentro. A certeza de que ninguém se recupera na solidão. A certeza de que o inconsciente encontra, sempre, alguma forma de se expressar, ainda que o mundo, muitas vezes, decida não escutar. E a certeza de que o gesto mais simples, o de sentar ao lado do outro, oferecer lhe materiais, tempo e atenção, pode ser mais transformador do que qualquer intervenção isolada.



Uma herança viva, não apenas arquivada

Talvez a maior prova da força da obra de Nise da Silveira esteja no fato de que seu legado nunca se restringiu a publicações acadêmicas, condecorações ou registros audiovisuais. Ele se manifesta, sobretudo, em práticas concretas, replicadas e reinventadas por gerações de profissionais que, mesmo sem tê la conhecido pessoalmente, seguem orientados pelos mesmos princípios fundamentais: acolher antes de diagnosticar, conviver antes de intervir, escutar antes de calar.

Essa dimensão viva do legado de Nise é, possivelmente, sua conquista mais duradoura. Ela não deixou apenas um método clínico documentado em livros e arquivos históricos. Deixou uma forma de olhar para o sofrimento humano que continua sendo ensinada, adaptada e praticada, décadas após seu falecimento, em contextos que ela jamais poderia ter imaginado, mas que carregam, ainda assim, a mesma convicção essencial que atravessou toda a sua trajetória: a de que cuidar é, antes de qualquer técnica, um gesto de convivência e de reconhecimento do outro.



O convite que permanece em aberto

Setenta anos depois da fundação da Seção de Terapêutica Ocupacional, a pergunta que moveu toda a trajetória de Nise da Silveira continua em aberto, e talvez seja essa a característica mais duradoura de seu legado: o que acontece quando decidimos escutar, em vez de conter, o sofrimento psíquico? Cada instituição que assume esse convite, à sua maneira e dentro de seu próprio contexto, dá continuidade a um trabalho que começou décadas atrás, em um setor abandonado de um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro, e que segue, ainda hoje, transformando vidas através da convivência e da expressão.



Considerações finais

A obra de Nise da Silveira nos convida a repensar, ainda hoje, o que entendemos por tratamento em saúde mental. Ela nos mostra que cuidar não se resume a intervenções técnicas pontuais, mas depende, fundamentalmente, de vínculo, presença e reconhecimento. Nos mostra também que a arte, longe de ser um adorno ao processo terapêutico, constitui via legítima de expressão daquilo que muitas vezes não encontra palavras.

Setenta anos após a fundação da Seção de Terapêutica Ocupacional, essas lições permanecem inteiramente atuais. E é justamente por isso que instituições como o Instituto Casa do Todos seguem, todos os dias, honrando o legado de uma médica que decidiu, contra todas as convenções de sua época, escutar aquilo que ninguém mais escutava.

 
 
 

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