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Quando Fazer Macarrão Também é Cuidar: Afeto, Psicologia e Transformação




O macarrão na Casa do Todos surgiu espontaneamente da necessidade de reunir um grupo para trabalhar arteterapia de um modo diferente. Pensei que algo acolhedor e de que a maioria das pessoas gosta poderia ser um tipo de aglutinador afetivo, como a família. Venho de uma família italiana que fazia macarronada aos domingos e em datas especiais. Essa é uma das minhas lembranças mais antigas. Lembro do meu avô, comigo no colo, perto da janela, conversando com as filhas, os filhos, as noras e os genros enquanto abriam a massa e faziam o macarrão. Faziam também o molho e os acompanhamentos.

Então, já na Casa do Todos, em sua antiga sede, percebi que muitos dos atendidos tinham dificuldades com seus familiares e, sem muita pretensão, resolvi testar. O primeiro grupo foi só de mulheres, e usamos a casa de uma atendida para fazer a massa. Percebi o quanto aquelas mulheres se acalmaram, se empenharam e se divertiram durante o processo. Ao final, mostraram-se orgulhosas de terem feito o macarrão.

Acredito que, de algum modo, sentiram-se em família. O afeto, algo tão importante para aquelas mulheres, estava circulando durante o processo, assim como o humor, as lembranças e o senso de realização. A ideia não era ensiná-las a fazer o macarrão para que fizessem sozinhas, mas, sim, que participassem como pudessem.

Tendo uma visão junguiana, a alquimia foi um aspecto importante para Jung, que viu nela muitos conceitos que levaram ao entendimento dos primórdios da psicologia como ciência.

A transformação dos materiais... Entendo que, se há alguma mágica nisso, ela está, de algum modo, relacionada simbolicamente à transformação de processos psíquicos projetados na matéria. Não tenho nada de místico e muito menos pretendi fazer algum tipo de magia, mas o processo de fazer a farinha e o ovo virarem macarrão fez sua mágica. Projetou conteúdos, transmutou materiais e conteúdos internos. O caótico daquela massa mole passou por transformação, pela transferência, caminhou à individuação e relacionou-se com o meio. E isso não aconteceu somente no material, mas também com os conteúdos internos de cada uma que participou do processo. Claro que não houve uma transformação tão profunda a ponto de fazê-las superar seus problemas psíquicos, mas, por algum momento, existiu um alívio e, posteriormente, sei, pelas devolutivas que ainda recebo, que deixou alguma marca positiva nelas.

Esse processo de fazer macarrão já utilizei também de modo individual na Casa do Todos, com um atendido com problemas de adicção que não tinha interesse por nada, mas desejava morar sozinho. Com ele, comecei ensinando a fazer algo básico, arroz, e chegamos ao macarrão. De alguém que pouco se interessava por outras pessoas, depois de algum tempo ele passou a fazer o arroz para o almoço dos outros atendidos. Nessa época, muitos atendidos almoçavam na Casa. Essa experiência pode, a princípio, parecer banal, mas com certeza teve muito significado na vida daquele rapaz. Houve uma abertura enorme, dentro de sua psicose, para o outro. Houve o surgimento da autoestima e o vislumbre de sua capacidade de realização.

Foi nessa época que outros atendidos se interessaram pelo macarrão. Fizemos, eu, esse rapaz e outro terapeuta da Casa do Todos, uns três quilos de massa para serem vendidos em um dos bazares que o Instituto promove. A partir daí, alguns atendidos começaram espontaneamente a pedir para eu fazer macarrão. Concordei, mas impus que todos me ajudassem. Claro que a maioria tinha limitações físicas ou psíquicas, de leves a mais severas. Então eu começava fazendo a massa, e eles me ajudavam a abri-la na máquina, fazer montinhos ou transformá-la em gravatinhas. Cada um, ao participar, sentia-se como fazedor de macarrão, pertencente ao processo, ao grupo, ao coletivo da Casa. Sempre havia histórias e muitos risos. Tornou-se um evento aglutinador, um processo de afeto entre pessoas que, na maioria das vezes, são colocadas como incapazes e excluídas.

Sinto que, ao fazer o macarrão com eles, me aproximo de uma figura familiar que, de alguma maneira, mexe com eles, talvez a da mãe à beira do fogão ou de um pai mais acolhedor, que orienta, divide tarefas, dá espaço para cada um tentar, ao seu modo, fazer o macarrão. Talvez uma figura e uma ação que possam ter feito falta em suas vidas e que, nesses momentos, possam resgatar e ressignificar o afeto. Sei que, depois disso, só me perguntam sobre o macarrão e quando vamos fazê-lo de novo.


Texto de autoria do psicólogo Flavio Castorino (CRP 06/31022)

 
 
 

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